Os Sacanas Anjinha Ou Diabinha Install Today
Por alguns segundos, nada além do apito da chaleira e da chuva. Então o ar ao redor do espelho do sótão ficou quente, como se alguém tivesse desfiado um travesseiro de luz. Um par de asas delicadas, feitas de luz de vaga-lume e papel de seda, se manifestou à sua frente, pairando; tinha olhos de botão e ares de quem conhecia promessas. "Sou Anjinha," sussurrou, "venho para arrumar o que se desfaz e proteger o que é frágil."
Fim.
Cora observava e aprendeu a negociar. Quando Quim, seu irmão, precisou de coragem para enfrentar uma prova de natação, Diabinha deixou a corrente da bicicleta soltar no momento certo, forçando Quim a nadar para não perder a competição. Depois, Anjinha costurou a jaqueta rasgada, garantindo que ninguém sofresse pelo efeito. Quando a professora de Cora se apressou demais e humilhou um aluno, Cora sussurrou para Anjinha não sufocar a conversa — e a Diabinha soprou palavras de coragem àquela criança para que pedisse desculpas à professora e, por sua vez, fosse perdoado. os sacanas anjinha ou diabinha install
Numa noite em que a lua era um prato de metal, apareceu outra presença no sótão: uma sombra mais compacta, uma risada miúda que cheirava a carvão. "Instal — diabinha," murmurou, cortando a luz como quem abre uma janela. Cora sentiu algo puxando-a por dentro. A voz da caixinha ecoou: "Você escolheu Anjinha primeiro; Diabinha costuma visitar os indecisos." Cora não teve escolha: como que convocada pela contrapartida, a Diabinha se recortou das sombras. Por alguns segundos, nada além do apito da
Mas Anjinha também tinha jeitos de quem nasceu fora do mundo humano. Não media proteção pelo que fazia sentido para os vivos; mediava pelo que precisava manter inteiro. Quando o vizinho, Sr. Joaquim, brigou com a filha e deixou a porta de casa aberta, Anjinha fechou a tomada da cozinha para que ninguém pudesse ouvir — e desligou o telefone, para que palavras duras não fossem ditas. Cora percebeu que às vezes proteção virava prisão: ideias trancadas, conversas evitadas, pequenas liberdades sufocadas. "Sou Anjinha," sussurrou, "venho para arrumar o que
Mas os Sacanas cobram atenção. Eles se alimentam de histórias reais: arrependimentos, risos, pequenos ousos. Se negligenciados, começam a instalar comportamentos próprios. Certa vez, Anjinha decidiu "proteger" Cora tirando suas chaves antes da escola — e Diabinha, no espirito de ensinar uma lição, escondeu as chaves na estante com todas as coisas que Cora amava. Cora passou a ficar ansiosa, confiou menos nos próprios instintos e correu para a caixinha, sentindo que a escolha de infância precisava de revisão.
Diabinha era fogo em forma de fita, olhos de faísca e um sorriso emaranhado. Gostava de mexer nas coisas que pareciam certinhas demais. Às vezes soltava uma corrente do banco para ensinar o irmão de Cora a não depender de consertos; outras vezes escondia uma carta de desculpa no bolso da jaqueta para que alguém a fosse procurar e, no processo, pedisse perdão de verdade. Onde Anjinha consertava, Diabinha reinventava. Onde Anjinha acalmava, Diabinha incitava coragem.
